Que tal um conto de Vampiro do para finalizar o dia?

 

A Terra de Prata

O frio dominava a pequena cidade de Brotas- SP, onde na manhã de quinta-feira os capôs esbranquiçados dos carros destacavam o branco da geada ocorrida na madrugada.  Sim a noite mais fria do ano havia se revelado à véspera da festa da padroeira da cidade – a festa de Santa Cruz.

Marcos havia acordado cedo, moeu no velho moedor manual, o grão torrado de café arábico que plantava no fundo da humilde casa. Sabia que ser pobre, não determinava que tivesse de abrir mão de um bom café. Ligou pequeno rádio a pilha, que anunciava a música Crazy Little Thing Called Love, do Queen. Enquanto degustava o café, cujo aroma dominava a pequena cozinha era incapaz de compreender a letra da música em inglês, mas a melodia era contagiante, cantada por um tal de Freddie Mercury, que tinha uma voz de arrepiar. Olhou para o calendário 10/05/1985; com um círculo vermelho no dia 10. Sabia que teria que chegar cedo em uma das casas mais chiques da cidade, para ajudar a descarregar cinquenta caixotes que vieram do exterior.  O relógio marcava 06:40. Engoliu o café, escovou os dentes. Pegou o rádio a pilha,  subiu na magrela e enquanto pedalava em direção ao rio Jacaré Pepira ouvia thriller de Michael Jackson.

Ao chegar em frente a grande casa, na porta já estava estacionado o caminhão da transportadora que chegara na madrugada proveniente do porto de Santos – SP.

Desceu da magrela e desligou o rádio. Viu Fernando, seu amigo chegar para ajudar na árdua tarefa. Não ganharia muito, mas eram cruzeiros suficientes para poder comprar duas cestas básicas e assim garantir suprimentos para mais um mês.  Sabia que seria pago as 19horas, pelo senhor Vlad Caludar, que vinha de uma cidade de nome estranho próximo a Moldávia. Proprietário estranho, lugar esquisito, pensou.

Aproximou-se de Fernando.

— E aí, Fernando, animado? — Perguntou enquanto guardava o rádio na mochila e retirava a chave que havia sido entregue na noite anterior — com metade do valor em cruzeiros e a outra metade para ser entregue a noite, após terminado o serviço —, já sabendo que a chave seria recolhida. Havia uma promessa de receber uma gratificação em dólar…

— Demais! Ainda mais com gorjeta do gringo hoje a noite. Quanto você acha que vai ser? — Perguntou Fernando olhando para Marcos.

— Sei lá. Mas se der eu vou comprar um Wallkman.

Marcos abriu o portão e deixou a magrela encostada no lado interno do muro. Calçou uma luva velha que havia ganhado de um amigo que fazia musculação.

— Mãos a obra Fernando? — Disse Marcos olhando para Fernando que se aproximou da primeira caixa.

— Puta merda! — Esbravejou Marcos.  — Essa caixa é pesada pra cacete! — Falou em meio a um gemido enquanto carregavam a primeira caixa.

— Onde que é para colocar essa droga? — Perguntou Fernando, enquanto os olhos de Marcos pareciam que iria saltar para fora do rosto.

— No porão, pelo menos está escrito nas instruções que recebi. — Respondeu Marcos, meio decepcionado enquanto se recordava dos conselhos do pai… ”Nada vem de graça na vida”, e já ao carregar a primeira caixa, já entendia o porque da gorjeta.

Por volta de meio dia, havia descarregado 19 caixas e pararam para o almoço, enquanto sentiam as mãos trêmulas de tanto esforço.

— O que você acha que têm dentro das caixas, que é tão pesado assim? — Perguntou Marcos olhando Fernando que estava com o dente amarelado da gema mole de ovo.

— Isso não é da nossa conta. Vai que seja um carregamento de cocaína. Você vai querer descobrir?  Eu que não vou. — Respondeu Fernando, enquanto rapava a marmita.

— Cara, mas e se for droga de verdade. Nós seremos cumplices e iremos presos. Acho que não custa nada darmos uma bisbilhotada. Você não concorda? Que mal teria em apenas olharmos o que tem na caixa e depois fechá-la? Tenho tudo o que precisamos na minha mochila. — Enfatizou Marcos enquanto guardava a marmita.

— Está bem. Só uma olhada e fechamos a caixa, ok? — Respondeu Fernando.

Caminharam até o porão da casa. Estranharam que todos os vidros estavam pintados de preto. Apenas luz artificial iluminava o grande cômodo.  Com uma grande chave de fenda Marcos abriu uma das caixas e para seu espanto, tudo o que havia na caixa era terra prateada.

— Isso só pode ser gozação! — Esbravejou Marcos, enquanto olhava para Fernando.

— Marcos, você já pensou que a terra pode ser só para despistar a droga? Vai que a droga esteja aí no meio da terra.

De fato as palavras de Fernando faziam sentido.

Marcos enfiou a mão na caixa revirando a terra.  Sentiu uma descarga elétrica percorrer seu corpo e caiu no chão em um espasmo convulsivo contínuo e intermitente; para o terror de Fernando, que não sabia o que fazer.

Marcos voava em um céu escuro numa noite sem estrelas. Aproximava-se de um castelo. Um castelo cinza, rodeado por árvores coberto de neve, iluminado ocasionalmente pelos raios prateados da lua gorda. De alguma forma sabia que naquele lugar pairavam dor e sofrimento. Como um fantasma era capaz de atravessar as paredes, até que chegou a um quarto, onde um homem vestido de forma elegante, conduzia uma linda mulher em um vestido branco para seus aposentos. Ela parecia estar hipnotizada por aquele homem, que se identificou como Vlad Drácula. Marcos viu as unhas de Vlad crescerem e com elas ele cortou as alças do longo vestido que a jovem mulher usava. Ela parecia estar em pleno deleite. Uma loira linda, com longos cabelos encaracolados e dourados, que cobriam todo o dorso e destacava-se na pele branca.  As mamas estavam com os mamilos rosados eretos — um momento singelo de êxtase —, onde a pele quente ignorava o frio, e os arrepios eram de puro deleite.

Drácula deslizava a própria língua entre as mamas em direção a parte íntima da pura e intocada mulher.

Marcos viu Drácula levantar-se e notou surgirem dois aguçados caninos, que com suavidade deslizava até o pescoço da donzela.

Então Vlad Drácula, olhou para Marcos e sorriu. Sim, Drácula conseguia vê-lo e em um movimento único e sem misericórdia cravou os aguçados dentes em direção a jugular da jovem donzela, cujo corpo contorcia enquanto rajas de sangue escorriam como a água de um rio, empoçando ao lado do vestido branco caído ao chão, que aos poucos, absorvia o vermelho formando uma imensa mancha no tecido.

Marcos escutou uma voz, a princípio distante até tornar-se intensa. — Marcos! Acorda pelo amor de Deus!

Foi então que recobrou os sentidos.

— O que… O que que aconteceu? — Disse gaguejando, até que perceber que estava caído no chão e Fernando seu amigo estava ao seu lado.

— Graças a Deus! Cara, você apagou por quase uma hora. Eu já ia mandar alguém na rua chamar a polícia para te socorrer e te levar para o hospital. Você ficou convulsionando e dizendo umas palavras esquisitas.

Marcos sentou-se enquanto sentia que recuperava a força.

— Cara tampa essa droga de caixa e vamos terminar de descarregar essa merda do caminhão. Quero ir embora daqui o quanto antes. — Disse Marcos.

— Você está doido? Você acabou de desmaiar. Você tem que ir para o hospital. — Afirmou Fernando.

— Cara, eu preciso da grana. Foda-se o hospital. Vamos acabar logo com essa droga de serviço. — Respondeu Marcos com rispidez.

— Você é quem sabe.  Não está mais aqui quem falou. — Respondeu Fernando, coçando a cabeça.

Já se aproximava de 19 horas, quando por fim descarregaram a última caixa. Por coincidência o monstro que havia visto, enquanto estava desacordado chamava-se Vlad. Era bem claro, que o homem que o havia contratado também chama-se Vlad.

Pegou a magrela e voltou para casa.

Marcos permaneceu o fim do dia calado, pensando na “visão” de quando havia ficado fora do ar. 

Entrou no chuveiro e puxou a cortina de plástico para não molhar o banheiro. Sentia a água quente correr pelo corpo e amenizar a dor aguda do trabalho árduo.

Não parava de pensar no ocorrido da manhã, de quando colocou a mão na terra amaldiçoada daquela estranha caixa.

Queria ficar mais no chuveiro, mas pensava na conta luz que ainda estava por vir.

Fechou o chuveiro, enquanto as mãos tateavam cegamente a toalha felpuda que havia pendurado no suporte da cortina de plástico.

Secou os olhos e quando abriu a cortina, sentiu um frio percorrer toda a coluna, enquanto o coração acelerava. Ficou mudo e as pernas enfraqueceram.

Bem diante de Marcos, estava a mesma mulher da visão que havia tido pela manhã, com a presa aguçadas iguais ao de Vlad Drácula.

— Vim trazer o seu pagamento. Você viverá sua curta imortalidade. As instruções foram claras, para não abrir as caixas.

Marcos ficou parado, com os olhos esbugalhados, até que a mulher cravou os dentes no pescoço do pobre jovem, que de forma inútil tentou lutar, mas a mulher parecia ter a força de 100 homens.

Marcos olhou na porta, ao lado do espelho e lá estava ele. Vlad Caludar, o homem que o contratara e o que lhe chamara a atenção era que Vlad não tinha reflexo no espelho. Foi então que sentiu o corpo enfraquecer ao tempo em que compreendeu que Caludar era anagrama de Drácula. 

Os olhos de Marcos então se fecharam.

Foi então que escutou o som da banda da Alvorada, que anunciava o dia da festa de Santa Cruz. Abriu os olhos e viu que estava no quintal da própria casa, amarrado ao lado de Fernando onde o Horizonte Vermelho destacava-se quebrando a escuridão anunciando o alvorecer.

— Fernando o que está acontecendo? — Perguntou Marcos assustado, sentindo-se diferente.

Fernando estava desacordado.

Até que os primeiros raios solares começaram a atingir Fernando e queimavam-no como gordura fervente sobre a pele Humana. Henrique começou a gritar até que seu corpo explodiu em cinzas.

Marcos finalmente havia encontrado o verdadeiro sentido na frase da discípula de Drácula. “Você viverá sua curta imortalidade”.

Olhou para trás e na escuridão pode ver a imagem de Vlad Drácula, que com um aceno gesticulou em sinal de despedida.

Marcos, da mesma forma que Fernando, começou a se incinerar a medida que os raios solares do alvorecer o alcançavam. Os gritos eram abafados pelo barulho da banda até que corpo explodiu em cinzas, que foram levadas pelo vento. 

Drácula voltou para o quarto escuro da casa de Marcos, enquanto a assistente demarcava seu novo ninho com a “terra de prata” contida nas caixas que Marcos havia no dia anterior, ajudado a descarregar.

Segurou na mão de sua donzela e deitaram-se no chão, abraçaram-se e adormeceram. 

Sim, naquele momento único, nunca o amor fora tão frio.

 

Hermes Marcondes Lourenço

Belo Horizonte/ MG.

Meus sinceros agradecimentos a amiga Fátima Rodrigues, pela revisão – (nota do autor).

@ Todos os direitos reservados

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *