O Gato Persa

 

Moro em um pequeno apartamento no Gutierrez na grande Belo Horizonte. Um apartamento velho, fruto maior que minha renda me permitiu comprar na minha fase produtiva, enquanto atuava como advogado.

Quando adquiri o imóvel, fiquei indignado. Isso porque minha renda que somada com a herança que recebi após a morte trágica de meus pais, ter sido suficiente para comprar um imóvel sem garagem.  Confesso que hoje agradeço, pois até minha habilitação foi suspensa. Afinal, quem iria deixar um velhote de 82 anos, com Parkinson dirigir. De nada ia servir a garagem a não ser para deixar o carro enferrujar e ter que pagar imposto.

Ficar velho é uma bosta. Desculpem-me pela expressão, ainda mais quando seus dois filhos moram no exterior e sua esposa faleceu consumida pelo câncer há mais de 10 anos.

Meu único companheiro nessa jornada, tem sido meu amigo pecaminoso.

Não pense que sou um velho doido ou tarado. Pelo contrário, Pecaminoso é o nome de meu gato. Um gato persa branco, com um olho amarelo e o outro azul, que pelo andar das carruagens, ele já deva ter a mesma idade do que eu ou talvez seja um pouco mais velho. A única vantagem que ele tem sobre minha pessoa é que ele não treme, em compensação o olho está quase colando um no outro de tanta remela chegando a aderir nos pelos da órbita ocular. Às vezes acho que ele um guaxinim desnutrido, pois ultimamente ele está puro osso. Já tentei limpar essa secreção dos olhos e a tinta vermelha que não sei onde foi que ele se lambuzou; mas é difícil. Eu com Parkinson, e o filho da puta do gato com Alzheimer, pois parece que ele não me conhece mais e toda vez que tento me aproximar dele o desgraçado do bichano parece que incorpora um exú e começa a rosnar e corre para os cantos.

É lógico que não vou pegá-lo, pois se você tivesse um bico de papagaio na coluna duvido que iria fazê-lo. Já faço muito em ver ele andar de um lado para o outro, como se estivesse perdido em casa.

Pode parecer mórbido, mas eu e pecaminoso fizemos uma aposta tão logo que Elizete, minha esposa faleceu (Que os anjos cuidem de sua nobre alma…). Nos pactuamos que quem morresse primeiro viria buscar o outro, pois nenhum de nós iria ficar sozinho.

Coisa de velho…. Pode até ser, mas nunca acreditei na vida após a morte.

Do jeito que pecaminoso anda magro, acredito que ele “vá pro saco” primeiro. Acredito que o pacto tenha sido uma forma que encontrei de quebrar a solidão e ter algo para fazer no resto de minha vida.

Minhas contas estão todas no débito automático. De vez em quando vem a vizinha do 301 bater aqui na minha porta saber se eu estou vivo. Já tem uma semana que ela não faz isso. Deve estar viajando ou arrumou outro affaire pois desde que ela se separou o quem mais tem feito é dar aquilo que não procuravam enquanto ela era casada.

Para piorar meu pesadelo, esta merda de televisão só pega um canal. O mesmo canal de notícias, sensacionalistas, com reportagens tão sangrentas que dariam para encher a lagoa da Pampulha.

O que me resta além do pecaminoso? Meu sofá confortável, a comida vencida na geladeira e os vizinhos com seus barulhos peculiares. Som de mijo do apartamento de cima, minha vizinha do 301 trepando as 23:00 e o arroto do porco do filho do 405 às 6:30 da manhã, logo antes dele ir para a escola. Isso sem contar o motor dos carros e motos que aceleram de madrugada, como se correr fosse resolver algo. É claro que não posso esquecer das músicas do Elvis Presley do morador do 101, que fuma um baseado e depois começa a cantar como se fosse o rei do roque. Isso por volta de meia noite.

O que tem me incomodado é que ouço alguns moradores que reclamam do cheiro podre que infesta o corredor (He he…. Cheguei a pensar que o pecaminoso tinha morrido e apodrecido na casa de algum vizinho, mas não. O desgraçado do gato está vivo, tão fraco quanto eu.  Mas essa é uma das vantagens de ser velho. Você vai perdendo o olfato. O risco é só soltar um pum, pois você nunca sabe o que é que vai sair).

Meus filhos no início eram presentes e telefonavam. A princípio todo dia, depois todo mês, depois só nos dias dos pais, natal, ano novo, aniversário e hoje eles não ligam mais. 

O culpado por isso, talvez tenha sido eu que os enchi de mimos, dando a eles tudo de bom e do melhor. De qualquer forma eles constituíram suas famílias e sei que tenho 3 netos e 1 netinha.  Pelo menos é a informação que tive há 7 anos. Não os culpo. Um velho com Parkinson e um gato com Alzheimer só iria complicar mais a vida deles, além de que vivo em minha “Terra adorada” que não tem sido uma mãe gentil.  Só fico na dúvida se meus filhos irão vir no meu velório…

De qualquer forma, fiz meu plano funerário, para ao menos ter o mínimo de dignidade quando for para a terra dos pés juntos.

De fato, pecaminoso está muito estranho. Não para de miar grosso. Agora só fica deitado no tapete da sala.

“Morre pecaminoso”, “Morre gatinho! ”.

Não tenham raiva de minha pessoa. Ver o pecaminoso morrer é pura diversão e libertar-se do sofrimento que tanto lhe aflige. O que mais eu poderia fazer? Amigos…. Fala sério!  Parte deles estão no cemitério e a outra parte virou pó e flutua em um algum lugar do Sena, do Tâmisa ou as cinzas foram carregadas para algum lugar onde o vento faz a curva.

Ouço batidas em minha porta.

Confesso que já não tenho forças para levantar e sequer receber visitas. Quando você ficar velho irá entender o porquê.

As batidas persistem e tornam-se mais intensas.

— Puta que o pariu! — Gritei com toda a força que fui capaz, só que de nada adiantou. Após um chute violento, vi minha porta cair rumo ao chão.

Era a piranha da minha vizinha que invadiu minha casa, sem minha autorização. A vagabunda estava acompanhada de dois policiais, que ao adentrarem na sala, um virou de lado, ou outro tapou o nariz enquanto minha vizinha começou a gritar e a seguir vomitar no chão da sala.

Foi então que me dei conta do que estava acontecendo.

Quando olhei para trás vi meu corpo que jazia sobre sofá da sala em frente à televisão ligada.

Múltiplos nacos de carne faltavam em meu corpo já em decomposição que aliado a água da privada, garantiram a sobrevivência do pecaminoso.

Bem, quanto ao resto do meu corpo, foi cremado.  As cinzas foram lançadas na lagoa da Pampulha para alimentar o jacaré pelas mãos da piranha de minha vizinha. É obvio que meus filhos não vieram. Quem se importa com quem já morreu em vida?

Já meu gato persa foi levado para um abrigo de animais.

O que pecaminoso não sabia era que dois anos depois dele ter sido adotado e ganhar o direito de morar num luxuoso apartamento no Belvedere (com ração importada e banhos semanais), é que nos reencontraríamos — por culpa do vício que lhe assegurou a sobrevivência —, após ele morrer afogado enquanto bebia a água da privada e sem ninguém para o socorrer.

Ao menos eu cumpri minha parte do trato.

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