Quarto 33

Desde pequeno me esforcei para ser um astronauta e ir trabalhar na NASA. Era motivo de riso de meus colegas, que sempre diziam que eu era louco e Nerd.

Eles estavam certos. Sonhos se desfazem no meio do caminho e as vezes tento medir o que nos resta quando nossas maiores aspirações são desfeitas. Medo, insegurança. Talvez… Eu prefiro denominar esse sentimento de frustração.

Hoje faço 35 anos e é meu aniversário. Não é um dia de comemoração ou de festividades, não para alguém que teve seu maior sonho destruído. Olho ao redor, e vejo apenas pedaços desfeitos de meu maior desejo.  Restaram foguetes que nunca alçaram voos e projetos meticulosos que ficaram apenas no papel. Ah! Se a Nasa os visse! Tenho certeza que já teríamos pisado em Marte ou quem sabe descoberto o verdadeiro segredo que se esconde por traz dos “buracos de minhoca”. Não posso reclamar, por outro lado fui recompensado com meus amigos verdadeiros que se fazem presentes. No meu caso, Cintia e Marcelo.

Sim, eles são as únicas pessoas que não deixaram que meu aniversário caísse no esquecimento, e estão aqui, arrumando os doces e pregando os balões no teto e preparando a mesa com meu bolo em formato de foguete.

Cintia é uma bela amiga. Já tive um caso com ela. — Mas isso fica entre nós —, e Marcelo eu tenho quase certeza de que ele é gay. Não que eu seja preconceituoso. Pelo contrário. Respeito cada um em sua individualidade. Mas eles são meus amigos e amigo de verdade nunca te abandonam e a amizade sempre perdura, desde a infância.

Desfiz o namoro com a Cintia por que percebemos que nossa relação parecia que ela tinha amor de mãe, mas o grande problema é quando o relacionamento se torna intenso, e as mulheres gostam de dar palpite. Sempre acreditei que no relacionamento perfeito os limites individuais são respeitados, que em outras palavras “cada um no seu quadrado”, e por isso optei em permanecer apenas com meus projetos. Imagine só, Cintia querendo dar palpite nos projetos de meus foguetes. Por isso optamos em manter a amizade.

Marcelo é graduado em engenharia aeroespacial. Quando ele entrou na faculdade, ele sempre me dizia que eu devia estar em seu lugar. Nisso ele tinha razão. Sei que ele ainda permanece meu amigo devido a termos crescidos juntos, mas na verdade houve uma época que achava que ele roubava meus projetos — e ainda acho.

Ele é uma boa pessoa. Seria meu lado bem-sucedido. Trabalha na NASA e conseguiu chegar onde eu nunca cheguei. Não tenho inveja dele não. Pelo contrário, as vezes acho que ele não seja tão bom no que faz, porque se fosse, não ficaria interessado em meus projetos.

Mas ele é uma pessoa bacana, e nunca me abandonou.

Eles são o que restou de minha família.

Meus pais morreram cedo, quando eu ainda era criança e essa é a maior razão de meu fracasso nesta vida, pois quando temos pais que nos apoiam, até o universo é pequeno.

Como disse hoje completo 35 anos. Sim, 35 anos longe das estrelas… Apenas olhar para elas e ver a lua foi o mais próximo que estive do espaço.

Meus convidados chegaram, todos vestidos a rigor.

Me deram uma bebida, balas e de repente, o mundo tornou-se uma espaçonave.

Sim, eu conseguia voar, e tocar a estrelas. Eu tinha a minha própria espaçonave.

Vi os anéis de saturno, o sol que em sua mestria iluminava nosso sistema.

Até que por fim não acreditava. O “buraco de minhoca”. Lá estava ele, bem diante de meus olhos e sem hesitar, saltei para dentro dele.

— Dr. Luiz Otávio, o que ele têm?

— Esquizofrenia e depressão psicótica. Ele têm alucinações com a mãe Cintia que se suicidou após manter relação afetiva com ele. O pior é que ele considera o pai, como se fosse um amigo gay e não o reconhece.  A eletroconvulsivoterapia é uma tentativa de trazê-lo a realidade.

— Professor, ele já recebeu duas descargas elétricas na cabeça. Isso não é perigoso?

— O velho docente riu. Não. Hoje os pacientes são sedados antes do procedimento.  Por isso temos o anestesista presente. Essa prática já uma rotina e segura. Não tem nada a ver com cadeiras elétricas dos sentenciados a morte. Espere… Meu Deus! — Gritou o docente enquanto o paciente se contorcia em múltiplos espasmos e um filete de sangue espesso escorria pelas orelhas e manchava o lençol branco, junto ao cheiro de queimado.

Levantou os cabelos longos do pobre moribundo, inconsciente enquanto o anestesista lutava pela vida em uma reanimação malsucedida.

Foi então que o monitor cardíaco se tornou uma linha reta, anunciando o final da viagem para o paciente do quarto 33, enquanto o docente lembrou-se com tristeza e pesar que o pobre paciente usava aparelho auditivo por uma deficiência congênita na qual a equipe havia se esquecido de retirar, ficando camuflada pelos longos cabelos e barba de alguém que um dia sonhou em ser astronauta.

Hermes Marcondes Lourenço

Fevereiro de 2017

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