A chuva forte, fazia com que a rua Francisco de Sá em Belo Horizonte se alagasse, congestionando o trânsito já intenso, onde motoristas desesperados tentavam sair dos veículos, temendo pela própria vida. Exceto um.

Carlos estava parado atrás de um carro, enquanto observava o nível da água subir e via pessoas correrem, pelo medo de serem arrastadas pela enxurrada.

Olhava para o limpador do para-brisa, que oscilava de um lado a outro, movimento que o acalmava e desacelerava seus pensamentos.

A morte seria bem vinda, desde que fosse indolor. – pensou, enquanto via as gotas da chuva colidirem contra o para-brisa do veículo.

Olhou para os carros que começavam a boiar diante de si, até que encontrou os próprios olhos na imagem do retrovisor.

Sim, o espelho. O maldito espelho, estava ali, face a face, mostrando seu lado mais sombrio e doloroso.

Era como se existissem duas pessoas, separadas por uma dimensão prateada.

Os olhos de Carlos não eram iguais ao do espelho. Os do espelho eram carregados de maldade, avermelhados, sem brilho e assustadores.

– Carlos, saia do carro. Preciso de você! – Falou os olhos vermelhos.

Ele observava, tentando compreender aquele lado sobrenatural que tornara-se parte da própria vida… Aquele maldito olhar, que mais uma vez, tentava dominá-lo.

Estava cansado da escravidão. O “olho”, assim o chamava, sempre que surgia lhe trazia uma nova e dolorida missão.

Viu as mãos sujas de sangue. Não traziam-lhe recordações, sequer remorsos.

Não queria sair. A enchente o pegara de surpresa, um imprevisto. Talvez um lance de xadrez numa partida contra o destino.

Desejava por um fim na própria vida e quem sabe encontrar o verdadeiro descanso.

“Os olhos” continuavam a observá-lo, com a frieza de outrora.

– Carlos, saía desta droga de carro, estou mandando!

Um sorriso surgiu no rosto pálido de Carlos. Pela primeira vez, tinha controle de si e não iria obedecer.

– Acabou! – Gritou, olhando para o retrovisor. – Vá embora. Você não vai mais me usar.

O olho continuava ali, frio, imponente e com a certeza de quem estava no comando.

Carlos olhou para os pés e viu que a água começava a entrar no próprio veículo e carregá-lo, como um barco a deriva, em meio a uma avenida alagada.

– Carlos, sua dor será eterna. Não adianta querer escapar. Saía já do carro! – Ordenou “o olho” mais uma vez.

– Não – respondeu oscilando a cabeça de um lado a outro, enquanto a água atingia a altura do joelho. – Sua capacidade de me controlar acabou. Essa foi a última mulher! – Respondeu para “o olho”.

– Você se lembra de sua mãe? Ela não pode ficar sozinha! – Afirmou o olho.

Carlos tentou pensar em algo diferente, mas o olho tinha razão.

Lembrou-se da noite em que o pai embriagado entrou em casa e com um pedaço de espelho dilacerou a vida da mulher que tanto amava. Jamais iria se esquecer dos cortes no belo rosto de sua mãe, do sangue se esvaindo no vestido branco. O olho tinha razão.

– Mamãe não pode ficar sozinha! – Afirmou Carlos para o olho.

– Então vá e faça o que você tem de fazer!

Carlos enfiou as mãos na água suja da rua que invadia o carro, lavando as manchas de sangue. Pegou uma pequena sacola, do banco de trás do veículo. Abriu o vidro do carro e driblando a enxurrada conseguiu chegar com segurança a uma loja, onde uma jovem atraente, apiedou-se do pobre homem.

– Venha, entre aqui! Meu Deus você quase morreu! – Disse ela.

Carlos apoiou-se na bela e atraente mulher e juntos, caminharam até um local seguro.

Horas depois, a chuva havia passado e deixou tatuado na principal avenida do bairro Gutierrez, as marcas da destruição.

A polícia, em meio a tanta tarefa, tentava compreender como uma pobre mulher, aterrorizada por uma enchente havia sido brutalmente assassinada. Teve o rosto todo dilacerado, igual ao da outra vítima, que havia sido encontrada pela manhã. 

O psicopata, usara como arma, o espelho retrovisor de um carro roubado, abandonado no meio da avenida.  O mesmo carro que havia sido visto na cena do outro crime.

Só não conseguiam entender, o porque os olhos das vítimas foram arrancados.

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