Olá amigos do site! Há algum tempo venho sendo cobrado por alguns conterrâneos de Itapeva – SP – minha cidade natal 🙂 – para que eu elaborasse ao menos uma curta história que envolvesse a cidade. Penso em minhas futuras publicações construir uma história que envolva minha cidade natal.

Antes de apresentar-lhes o conto investigativo a seguir, é bom alertar que se trata de um conto de ficção, onde a semelhança dos nomes dos personagens com pessoas vivas ou mortas e ou acontecimentos reais, trata-se de mera coincidência. Apenas os nomes de alguns bairros e locais específicos foram utilizados para enriquecer o cenário da história. Espero que gostem. Um forte abraço a todos! Deixem seus comentários.

O Amargo fim de Dulce Maria

Madu era o nome de guerra da prostituta mais
assanhada da cidade de Itapeva-SP, registrada conforme os quesitos da lei como
Dulce Maria. Obviamente, pai e mãe desconhecidos.

Diga-se de passagem, que a maioria das mulheres
casadas da cidade a temiam, mais do que o próprio capeta, pois Madu foi a
semente da discórdia e como uma tesoura de vergalhão, cortava os elos que o
padre havia unido diante do altar, sob o manto e juras de amor.

Casamentos arruinados, namoros rompidos e é claro,
noivados também.
Detentora de uma beleza de fazer inveja a Afrodite, sexualmente esclarecida,
capaz de levar qualquer homem ao puro deleite e outros a morte. É claro, que
houve suicídios — dos homens cujo coração era ausente de blindagem que se
sucumbiam pelos encantos, doçuras e travessuras de Madu.

Era considerada uma bruxa e por enfeitiçar vários
homens, acredito que ela teve o mesmo fim.

Lembro-me do fatídico 31 de Outubro de 1981, (por
ironia – Dia das Bruxas), quando recebi a notícia de que um corpo havia sido
encontrado carbonizado próximo a linha de trem da cidade. A vítima havia sido
queimada viva, nua como veio ao mundo — pois suas vestes foram encontradas sob
uma pedra bem perto da fogueira, junto com uma pequena bolsa enterrada ao lado
da pedra, onde estavam os documentos de Dulce Maria. Naquela época, antes de me
aposentar eu ainda era investigador, e é claro que enviamos os restos
carbonizados para análise que graças a uma cárie recém restaurada, conferiam
com a informação do dentista que havia feito a restauração.

O xis da questão era descobrir quem era o psicopata
que havia posto fim na puta mais querida da cidade. Talvez essa tenha sido a
investigação mais difícil de minha vida, pois a danada era extremamente odiada,
ainda mais pelas beatas e pelas mulheres bem casadas.

Como bom investigador meu primeiro passo foi não
tirar conclusões precipitadas. Tentei unir vários fatos que somados as provas,
apontaram para o principal suspeito.

Meu primeiro passo foi ir ao puteiro. Ossos do
ofício.

Pela primeira vez vi as putas em luto. Jurava que
puteiro fosse festa 24 horas, mas no dia seguinte em que fui ouvir as
testemunhas, a tristeza era generalizada. Madu era querida, e ajudava
financeiramente muitas instituições de caridade. Dizia que o que ganhava ia
para as instituições, e confesso que nenhuma instituição recusou o dinheiro de
Madu.

No puteiro – me perdoem, mas para preservar os
nomes das investigadas vou utilizar o nome de guerra de cada uma – Kaka boca de
veludo, relatou que havia visto no dia do crime, Madu sair à noite, ansiosa
para encontrar com um novo cliente. Segundo ela tratava-se de um homem muito
letrado, que lhe presenteado com uma pasta cheia de notas de 10 mil cruzeiros, na
noite anterior ao crime, mas não conseguiu ver o rosto. Garante que a pessoa
que trouxe a pasta, antes de dobrar a esquina montou na garupa de uma bicicleta
e desapareceu sob o manto da noite.

Liza, a hippie selvagem, disse que no dia do crime,
havia saído com Madu para comprar perfurme e ela viu a mulher do prefeito
apontar o dedo em forma de arma para a cabeça de Madu e simular um disparo.
Após confirmar com mais detalhes, descobri que o prefeito era cliente assíduo
do puteiro.

Vevê fogo selvagem, me deixou na saia justa, pois
segundo ela, o meu chefe havia dormido na noite anterior ao crime e saiu do
puteiro sem pagar, dizendo que se o ameaçassem ele iria fechar a espelunca e
antes disso enfiaria as putas num barril de agua fria pelas pernas, até que
elas tomassem vergonha na cara.

O meu chefe eu conhecia bem. Era a cara dele não
pagar o puteiro, mas matar jamais. Ele havia se separado e ido no puteiro no
dia de folga, mas não podia descartá-lo como suspeito até que tivesse uma evidência
plausível.

Jojo buraco negro, era a que estava mais nervosa,
pois ela disse que noite do crime ela viu um taxi chegar na porta do puteiro e
Madu entrar no taxi toda produzida.

Bem, hoje vivendo minha aposentadoria e com minha
mente livre do Alzheimer, lembro de que eu tinha duas informações preciosas que
me chamavam a atenção. A primeira foi o pagamento de 10 mil cruzeiros em
dinheiro e o “doador” fugir na calada da noite de bicicleta. A segunda
informação é que não poderia desconsiderar na condição de investigador, jamais
poderia deixar procurar um novo suspeito, neste caso, o taxista.

Não seria uma tarefa difícil, já que Itapeva
naquela época contava com uma pequena frota de taxista. Era só descobrir qual
era o taxista que havia feito a corrida com Madu.

Antes de ir ao ponto de taxi, fui conversar com delegado
e com a primeira dama e com o ilustre prefeito. Não tenho a menor dúvida de que
o delegado e a primeira dama precisavam de um psicólogo, e me recordo de que
tanto que choraram que nem criança. O prefeito, temia que a esposa descobrisse
o adultério, mas ficou bem claro — e depois confirmei com Vevê fogo selvagem,
que o prefeito não tinha nenhum contato com Madu e a paixão do prefeito no
puteiro era Liza, a hippie.

A pedra em meu sapato era meus pensamentos a
respeito do estranho da bicicleta. Fui até o ponto de taxi no mesmo dia.

No final de tarde, quando cheguei no ponto de taxi,
foi fácil encontrar o taxista, em especial quando a notícia de que uma das prostitutas
do puteiro havia anotado a placa do taxi na qual da última vez que a vítima
havia sido vista viva. Confesso que havia jogado verde para colher maduro… 

A notícia no meio dos taxistas dissipou com um
“pum” no elevador, até que Ramires, cabisbaixo, aproximou-se assumindo que ele
havia levado Madu para a linha de trem, e que ela estava muito feliz, pois
havia sido paga em dinheiro. Descreveu até a “pasta” com dinheiro que havia
recebido do amante – segundo ela, a pasta executiva tinha um detalhe no fecho:
uma pequena e reluzente esmeralda.

É obvio que Madu não havia pago a corrida. E quando
coloquei Ramires na parede, ele me disse que um menino de aproximadamente 15
anos, troncudo havia ido até ele numa bicicleta vermelha e pago uma generosa
quantia, para ele ir buscar Madu no puteiro as 20:00h. A informação batia com o
relato de Kaká boca de veludo.

Bem, por sorte surgiu um taxista que também havia
visto o menino da bicicleta e informou que o garoto se chamava Pedro e
frequentava a igreja do Bom Jesus, no bairro de mesmo nome.

No dia seguinte fui até a igreja a procura do
menino.  Fiquei tentando imaginar quem
seria a mente doentia que manuseava a inocência de uma criança.  Meu coração palpitava por uma resposta e eu
sabia que estava perto.

Fiquei amoitado no meu carro estacionado em frente
a igreja. Não quis sair perguntando. Foram dois dias de butuca, até que numa quinta-feira
à tarde, vi o menino com bicicleta vermelha aproximar-se da igreja e descrição
do garoto era a mesma do taxista.
Quando chamei o moleque pelo nome, ele parou e me respondeu com um gentil pois
não.

Não quis assustá-lo, mas eu tinha certeza de que
ele estava sendo usado.

Quando mostrei minha identificação de policial, o
Pedro fez juz ao nome. Ficou paralisado como uma pedra e por pouco não se mijou
nas calças.

Ele entregou fácil. Relatou que o farmacêutico da
cidade havia pago para ele levar o dinheiro na véspera da morte de Madu e que
era para ele pagar uma corrida ao taxista para no dia seguinte ele levar Madu
na linha de trem perto do pontilhão.  Também
era recuperar a bolsa preta com a esmeralda que estava no puteiro.

Não compreendia a relação de Pedro com o
Farmacêutico da principal farmácia da cidade – conforme o menino havia descrito
—, mas disse ao menino que se ele contasse para alguém mesmo em confissão que
eu estive ali, eu iria transformar a vida dele num verdadeiro inferno. Dessa
vez tenho certeza de ele se borrou nas calças.

Fui a procura do farmacêutico na principal farmácia
da cidade, conforme Pedro havia mencionado.

O farmacêutico era um cara jovem, cuidava bem do
corpo e as mulheres diziam que ele era um deus grego.

Quando encontrei Renan e me apresentei a princípio
ele ficou pálido que nem a emulsão de
Scott
que ele vendia naquela farmácia. Mas quando relatei que estava
investigando a morte de Madu, o sujeito começou a chorar e disparou a gritar
assustando os clientes da farmácia antes de desmaiar.  Não tenho a menor dúvida de ele gostava de
Madu.

Após Renan ter sido socorrido na própria farmácia e
se recuperar, tirei do bolso meu bloco notas e fui questionando-o sobre cada
detalhe que o envolvia no crime.

Renan não teve outra opção, senão abrir o jogo. E
quando ele resolveu abrir a boca, fui eu quem quase desmaiou.

Renan era bissexual e segundo ele por carregar a
maldição Y no próprio cromossomo, sucumbiu-se aos encantos de Dulce Maria. Se
apaixonou. A puta fez o cara virar homem…

Isso o fez colocar fim nos longos anos de
relacionamento com o Padre João da paróquia do Bom Jesus, que jamais aceitaria
que seu romance fosse interrompido por causa de uma puta.   Como de rotina proibi o farmacêutico de sair
da cidade e fui conversar com o padre.

Quando entrei na casa paroquial, estava lá o Padre
João, com olhar carismático e me recebeu com um agradável e inocente bom dia.

Antes de contar o ocorrido, ele me ofereceu um
café. Aceitei é claro.

Quando ele abriu o armário para pegar o adoçante,
lá estava ela: A pasta executiva preta com a Esmeralda verde, iguais aos olhos esverdeados
de Renan.

Assim que disse a verdadeira razão de minha visita
para o padre, ele ficou calado. Naquele momento dei voz de prisão e chamei meus
colegas para pegarem a valise e levá-la para análise pericial que dias depois
relatou que a impressão digital de Madu, do Moleque e do padre estavam na única
prova do crime.

O padre João foi excomungado e preso.

Semanas depois ele se enforcou na prisão após
deixar uma confissão do crime por escrito, mas na sua versão, ele dizia que
Madu era bruxa e como tal devia morrer.

As mulheres da alta burguesia da cidade, afirmavam
que Padre João era Santo e atribuíram até alguns milagres a ele.

Pedro, o menino depois que soube da morte do padre,
contou que teve jurar ao clérigo que se perguntassem sobre a bicicleta era para
ele culpar o farmacêutico.

Quanto a Renan continuou trabalhando na farmácia da
cidade e anos depois, mudou-se para a Argentina.

O puteiro fechou e até hoje lhes asseguro que
Itapeva jamais teve outra puta tão doce e com um fim tão amargo quando Madu.

Hermes Marcondes Lourenço

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