NOITE “FEL”iz

Flocos de neve bailavam de forma suave enquanto cobriam as ruas de Ottawa – Canada tornando a pequena cidade numa imensidão branca, onde o cintilar das luzes que anunciavam a noite de natal, se confundiam com as sirenes dos carros de polícia, estacionado em frente à casa número 13 da rua Nicola Tesla.

Já na entrada, os policiais Noah e Jacob após terem tocado a campainha por minutos incansáveis e não serem recepcionados, optaram por arrombar a porta, ainda mais quando o chamado envolvia um dos homens mais famosos da cidade: Ernest Silva —o fabricante artesanal das munições que abastecia a polícia local, cujas balas eram incomparáveis.

A queixa da vizinha havia sido bem objetiva. Ela havia escutado tiros provindos da casa do Sr. Ernest, o brasileiro bem-sucedido e esquisito, que há uma semana, lhe havia dado carona do aeroporto enquanto trazia as cinzas do irmão brasileiro, para ser lançada no rio Ottawa. Como boa samaritana a vizinha achou por bem acionar a polícia.

Os policiais mal colocaram os pés na sala, já ouviram disparos enquanto um vulto corria de um lado a outro. Noah e Jacob, impulsionados pelo instinto, se jogaram ao chão e atiraram em represália, na sombra que oscilava de um lado a outro em meio à sala mal iluminada.

Do lado de fora, quatro policiais, ao ouvirem os disparos, foram oferecer apoio a Noah e Jacob que se encontravam sob fogo cerrado.  Ao entrarem viram a mesma sombra, mover-se de um lado ao outro, enquanto os disparos continuavam. Assumiram posição tática em um local seguro enquanto atiravam em direção ao criminoso, até que um dos policiais iluminou com a lanterna quebrando penumbra em que se encontrava o “vulto”, e pôr fim a ordem de cessar fogo foi ouvida e obedecida por todos os policiais.

Perceberam que o som do disparo continuava, mas o vulto era um volumoso saco, que aos poucos findava seu movimento oscilatório.

Um dos policiais iluminou a estante e viu o que o som do disparo vinha de diversas caixas de som estrategicamente instaladas, e controladas pelo home theater da casa, que de forma súbita desligou, programado por algum timer.

Os policiais levantaram-se e viram que o volumoso saco em que haviam atirado, gotejava sangue, que formando uma grande e vermelha poça ao chão que ia aumentado de tamanho.

Aproximaram com cuidado, verificaram a segurança da sala. Logo atrás do saco havia uma árvore de natal enfeitada com bolas coloridas e sem luzes, onde no lugar da estrela havia um papel impresso em dizeres garrafais: “Feliz Natal. O outro presente de vocês está no meu quarto!”.

Ao observarem acima do embrulho gigante, havia um mecanismo, que era acionado por algum tipo de sensor, que fazia o volumoso embrulho oscilar. Ao olhar ao redor com mais cuidado, viram o mesmo tipo de sensor acima da porta e outro conectado ao home theater. Concluíram que, ao abrirem a porta da sala, acionaram todos os mecanismos.

Enquanto alguns policiais se ocupavam em compreender a funcionalidade dos dispositivos, outros baixaram grande embrulho que gotejava sangue, e com uma faca militar abriram o conteúdo. Para espanto de todos, encontraram o corpo cravejado de balas e sem vida do pedófilo mais procurado do Canadá, popularmente conhecido como Candy Man.

Subiram com cuidado ao quarto do Sr. Ernest Silva, temendo em serem surpreendidos por mais alguma armadilha eletrônica.

Assim que abriram a porta, avistaram a imagem de um homem, vestido com um roupão, debruçado sobre a escrivaninha. Lá estava o corpo do senhor Ernest Silva, que havia atentado com sucesso contra a própria vida, dando um tiro na cabeça usando uma velha pistola Colt, que estava ao lado do corpo, caída no chão.

Sobre a escrivaninha havia uma carta escrita com uma caneta tinteiro Montblanc, que estava ao lado da folha.

Sem colocar os dedos os policiais leram o teor da carta.

Dizia:

Interessantes e irônicas são as noites natalinas.

Quando olho pela vidraça de meu quarto, fico encantado com a neve a cair, e tudo o que vejo são gotas de chuva congeladas, transformando-se em uma imensidão branca e fria, tão fria quanto minha alma.

Natal, a noite que Ele nasceu, para muitos significa esperança, renovação, futuro, amor, amizade e a comilança. Para mim, vejo Nele alguém que sofreu, morreu e deixou uma grande história. Respeito-o e admiro-o em toda sua plenitude, pois Ele soube superar o sofrimento, eu não.

Sim, odeio o Natal e as pessoas que o celebram, e confesso que odeio até você que está lendo esta carta e bisbilhotando minha vida. Só que agora não importa, pois já não estou aqui, porém tenho uma última missão a cumprir.

Minha história começa no dia que nasci, em um berço pobre, humilde, pais trabalhadores e, diga-se de passagem, que a casa de madeira que eu morava, balançava ao vento e minha mãe enferma, temia que caísse sobre nós enquanto lutava com os parcos recursos públicos de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, para sobreviver contra o câncer de pulmão que havia adquirido trabalhando horas extras numa fábrica de telhas, manuseando o asbesto. Sei que você pode estar em dúvida sobre asbesto, acredito que você deva conhecê-lo como amianto e um de seus principais produtos, a telha de amianto.

Meu pai, um pobre coitado, morreu cedo de tuberculose. Minha mãe enquanto gozava de boa saúde me deixava na casa de meu primo com minha tia para me cuidar, local onde eu era abusado sexualmente pelo primo mais velho.

Às vezes me pergunto por que nasci? Sinto-me meio barroco, e nos versos de Gregório de Matos Guerra, consigo encontrar algum alento:

‘Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 

Depois da Luz se segue a noite escura, 

Em tristes sombras morre a formosura, 

Em contínuas tristezas a alegria’

Nisso ele estava certo, até a alegria morre.

O fato é que se você encontrou essa carta, bem, quero fazer uma brincadeira com você, afinal, tenho toda a eternidade para me divertir!

Em toda minha vida o crime mais perfeito que tive conhecimento foi na obra de Agatha Christie, onde a autora de forma genial assassinava o marido infiel com uma peça de pernil congelada e depois, colocou o pernil para assar e serviu aos policiais que investigavam “a morte do marido pela queda da escada”. Perdoe-me o palavrão, mas puta que pariu, a autora em sua genialidade fez com que os policiais comessem a prova do crime e ainda lambessem os beiços! – Extraordinário.

Talvez eu não tenha o brilhantismo de Agatha Christie, mas meu coração tornou-se uma pedra e eu tive uma vida toda para pensar em um crime perfeito.

Só se você for um idiota, para não entender a razão desta carta, pois como um crime perfeito seria descoberto sem ter alguém para desvendá-lo? Tenho certeza de ninguém irá solucioná-lo, por isso tive que deixar esse pequeno manual de instruções.

Ah sim, lembra-se do meu primo, aquele filho da puta pedófilo que citei em algumas linhas atrás?

Advinha quem morreu primeiro do que eu? Amo meu humor irônico!

É logico que mandei o bastardo para o inferno, talvez para me abrir as portas para quando eu chegar lá e terminarmos de acertar nossas contas que possam ainda estar pendentes.

Pelos meus cálculos, vocês meus queridos “policiais de bem” é quem devem estar lendo esta carta. Claro, este meu último presente foi escrito para vocês de forma a revelar meu crime perfeito.

Creio que a essas alturas, vocês já executaram o pedófilo mais procurado daqui do Canadá, conhecido como Candy Man, e logo, os legistas irão concluir que o maldito foi morto por vocês e meu nome permanecerá limpo pela eternidade.

Mas antes de concluir esta carta, queria contar a vocês que recentemente estive no Brasil. Como produzo munições artesanais, e considerando o valor do dólar canadense em relação ao real brasileiro, foi fácil permutar uma forja, onde o dono, meu velho amigo de infância, aceitou fazer uma troca provisória para hospedar por 3 meses na minha casa aqui em Ottawa. A Família dele era doida para conhecer o parlamento.

É claro que era a melhor oportunidade de minha vida. Peguei meu voo para o Brasil, aluguei uma caminhonete e comprei um teaser pela internet, isso após observar por semanas a rotina de meu primo – um lobo, vestido em pele de cordeiro.

À surdina, durante a noite na minha pequena cidade, vi o bastardo sair do bar, alcoolizado. Ele adorava aquele lugar. Chamava as crianças para comprar futilidades e depois levá-las para seu apartamento para mostrar seus brinquedos. Mal sabiam elas que era um embuste.

Bem, não pensei duas vezes. Aproveitando-se do manto da noite, usando o teaser que comprei deixei-o desacordado, o amordacei, o amarrei e o coloquei no porta malas de meu carro e o levei para outra cidade onde estava localizada a forja.

Confesso que não foi uma sensação agradável, ter que esquartejar o desgraçado ainda vivo e queimar suas partes lentamente nas chamas intensas que superavam os 1.300ºC, enquanto ele assistia e implorava pelo perdão… Dedos das mãos, pés, e por aí vai… Parte a parte, transformando-se em cinzas. Bem, feito isso, foi só trazer as cinzas dele aqui para o Canadá. A pergunta que vocês devem estar se fazendo neste momento é porque eu trouxe as cinzas dele para cá?

Simples, quando você é abusado na infância, você se torna o anjo da guarda de outras crianças e foi dessa forma que, acidentalmente encontrei o Candy Man após ter visto o retrato dele aqui na TV do Canadá. Ele, semelhante a um animal predador, se aproximava de algumas crianças, e as sequestrava. Meus instintos me diziam que ele iria executá-las na noite de Natal e eu estava certo, pois a casa dele e o quarto secreto estavam todo enfeitado.

Enquanto eu colocava em prática meu plano, era péssimo, passar pela sala e ver ao lado da privada as cinzas de meu primo no recipiente, mas eu fazia questão de urinar todo dia naquela privada e que alegria quando respingava gotículas de urina naquele pote com cinzas! 

Ah… aquele filho da puta teve o que merecia! Bem, vocês devem estar curiosos, sobre onde estão as cinzas de meu primo? Ela está misturada na pólvora e no chumbo das balas de cada um de vocês, e neste momento deduzo eu que suas balas estão no corpo do Candy Man. Irônico não é? O Candy man, morreu por uma bala fabricada com as cinzas de outro pedófilo!

Mas o grande e verdadeiro presente de Natal está no verso desta carta. O endereço onde vocês irão encontrar as crianças que foram sequestradas por esse outro doente.

Acho que vocês neste momento sublime devem estar concluindo que sou um criminoso…

Não aqui no Canadá, pois o crime que relatei aconteceu no Brasil, e lá, não sei se vocês sabem é um país meio que sem lei. E quem vai querer extraditar um cadáver, ainda mais quando não tem família?

Pela última vez, enquanto olho os flocos de neve a cair, mais frios que meu coração, nesse momento, afirmo com toda a certeza de que a vingança não compensa, pois descobri que você às vezes é capaz de se tornar mais cruel do que seu algoz.

O feliz para mim resume-se em suas primeiras três letras que no português brasileiro significa Fel.

Finalmente nestes últimos segundos de minha vida, meu coração se esfria enquanto minha alma volta a se aquecer.

Ernest Silva.

Os policiais usando uma luva viraram a carta e atrás havia um endereço. Viaturas foram imediatamente despachadas para o local, onde foram encontradas cinco crianças em cativeiro, ainda vivas graças ao Senhor Ernest Silva cujo corpo foi sepultado no dia seguinte. Hoje o senhor Ernest Silva é considerado um herói.

Hermes Marcondes Lourenço

Proibida reprodução total ou parcial deste conteúdo sem a prévia autorização do autor.

Todos os direitos reservados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *